quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

África Mar conto 1



 África Mar

Quando partimos, minha mãe disse que o Brasil era o paraíso, o lugar onde a gente não precisava imaginar a comida nem beber água com gosto tão ruim. Desde que eu nasci, minha mãe brigava com meu pai diariamente; ela sempre insistiu, tínhamos de tentar a travessia! Não deu muito certo, mas eu ainda tento ir para o paraíso.

    – Naja, acorde! Temos que limpar o convés, eu não vou fazer teu trabalho hoje.

"Aze é estranho! Ele sempre se acha mais adulto do que eu, mas temos a mesma idade. Acho que é porque o capitão confia mais nele. O nome dele nem é assim, mas todos aqui gostam de chamá-lo assim. Significa 'rei' em uma língua tribal. Ele é uma boa pessoa; quando eu cheguei, ele me protegeu. Ele falou que meus pais estavam bem, que estavam com a deusa do mar, e que ela está cuidando deles."

– Naja, o balde, pegue o balde! Está pensando em quê, hein, Naja? Em mais uma das suas histórias? Ninguém liga para suas histórias.

– Você ouve quando eu conto!

– Porque eu não estou com sono e não tenho nada melhor para fazer. Agora vai mais para lá, mais para lá; se ficarmos esfregando no mesmo lugar, nunca terminaremos.

"Aze ouve e gosta das minhas histórias, sim! São as histórias da minha mãe. Minha mãe gostava de estudar; ela estudava histórias antigas do nosso povo. Eu conto as partes que me lembro e invento as que eu não lembro. Por isso ela queria tentar entrar no paraíso, queria saber como o nosso povo mudou lá. Às vezes eu digo para mim que ela pode ter conseguido chegar na Costa, mas Aze diz que é apenas a minha dor falando, a dor de estar sozinho. É normal, pois aqui todo mundo está sozinho."

– Ei, moleque, o que está fazendo lavando a minha mochila? Aze, você não está vendo o que este idiota está fazendo?

– Me desculpe, senhor!

– Ai!

– Ele é um distraído; vou dar uma lição nele.

– Escutem, garotos, poucos barcos aceitam órfãos, então se esforcem. Vocês não estão em nenhum cruzeiro.

– Sim, senhor!

– Sim, senhor!

– Não precisava ter me dado um tapa; foi ele quem deixou a mochila largada por aí.

– Você é um tolo, Naja. Quer dormir no convés como ele? Continue fazendo essas coisas que podem fazer o capitão se irritar com você.

– Se eu fosse adulto, eu não seria um fracassado como ele, dormindo em um convés. Eu já teria dado um jeito de entrar no paraíso, ou estaria em um cruzeiro.

– Você estaria em um cruzeiro? Só se for limpando o chão de lá, e mesmo assim voltaria para dormir aqui à noite. Escute bem, Naja: nós somos crianças. Não podemos puxar rede, e temos que agradecer por não nos mandarem tirar sal do mar. Ande logo, que hoje vamos receber frutas.

O paraíso nos manda frutas uma vez por semana; essa é a única vez que os barcos de patrulha atravessam a linha, pelo menos de forma amistosa. Das outras vezes, eles atravessam com fúria, atrás de quem manda ataques contra eles.

Eu e Aze adoramos isso, mas não somos chamados para ajudar a descarregar sempre, só algumas vezes. Aí aproveitamos e colocamos muitas frutas na nossa boca antes que os homens dos cruzeiros vejam. Os homens do Paraíso não ligam; na verdade, eles não deixam que os outros nos maltratem enquanto estão aqui, mas depois que vão embora, tudo muda.

– Ponha na boca apenas frutas pequenas, não as grandes.

– Eu sei, Aze!

– Não tente trazer nada, coma tudo lá.

– Eu sei, Aze, eu não sou um idiota.

– Lembre-se de que vamos ser revistados na saída do cruzeiro.

"Chamamos de 'barco do cruzeiro' porque eles mandam em tudo por aqui. Eles são os barcos maiores; sem eles, a maioria não teria chance nas tempestades. Aqui, todos os barcos são amarrados entre si, mas são mesmo os cruzeiros que sustentam a todos. Às vezes tem briga nos cruzeiros pelo poder; às vezes também tem revolta nos barcos menores, que tentam invadir os cruzeiros e tomar o poder, mas eles sempre perdem. Aí são banidos, e seus barcos desamarrados; ficam à deriva, sem poder ir para o paraíso e sem combustível para voltar à África. Alguns somem e outros afundam, mas nunca voltam. A maioria é levada pelas tempestades".

– Naja, a caixa! Não pense muito, Naja! O cruzeiro quer isso depressa!

"Daqui a pouco, eu e Aze vamos até um canto e vamos comer uva. Já está tudo planejado; Aze cochichou em meu ouvido assim que os outros foram contar as caixas."

Aze e eu estávamos felizes comendo uva; eram deliciosas. Não podíamos imaginar… nenhum de nós prestou atenção. Eu só olhava para Aze; aquela era uma das poucas vezes que ele parecia uma criança, como eu! Mas, de repente, um homem do cruzeiro estava nos arrastando até os outros. Eles nos chutaram e bateram. Eu não pensei que Aze fosse revidar, ele sempre diz para mim não revidar nem as palavras, nem os golpes dos homens do cruzeiro. Mesmo assim, ele revidou, e agora estava no chão, sangrando e apanhando. "Assim, Aze vai morrer", pensei. Meu coração batia forte, tão forte… mas eu não conseguia fazer nada, meu corpo não se movia, e eu só conseguia chorar. "Assim, Aze vai morrer!". Foi esse pensamento que me tirou da paralisia, e então puxei forte o homem que me segurava e saí correndo. Eu sabia que ele estava atrás de mim, mas não olhava para trás e também não via o que estava à minha frente, até trombar em um homem do Paraíso.

Aze estava sentado em uma maca enquanto uma moça do Paraíso fazia curativos nele. Minha mãe ficaria feliz em vê-la; ela era quase da minha cor, só um pouco mais clara. Com certeza, é uma das descendentes que minha mãe queria conhecer. Ela era médica. Estavam nos levando de volta ao nosso barco. Aze e eu estávamos com medo; o capitão não ia gostar, podíamos ser expulsos. Não que ser expulso significasse sair do barco, mas não teríamos mais comida em troca de afazeres e nem poderíamos dormir lá embaixo, com um teto sobre nossas cabeças, como diz Aze.

        – Vocês vão precisar de ajuda? – perguntou a moça do Paraíso, enquanto descíamos.

        – Não! – respondeu Aze. – Já causamos problemas demais!

Aze saiu rapidamente, e eu fiquei ali por algum tempo, pensando que precisaríamos de ajuda. Mas não falei nada e fui ao encontro de Aze.

Menos de uma hora depois, eu e Aze estávamos limpando o convés. Aze fazia isso tão rápido e tão bem como eu nunca tinha visto. Limpamos todos os cantos do barco até que finalmente o capitão apareceu em nossa frente.

        – O que aconteceu no cruzeiro hoje, Aze?

Aze virou as costas para o capitão e continuou limpando, mas eu vi suas mãos tremerem enquanto tentava esconder.

        – Vocês deveriam ter trazido frutas pelo trabalho. Onde estão, Aze?

        – Eles não me pagaram… trouxeram poucas frutas, vão nos pagar na próxima remessa – mentiu Aze.

Mal Aze fechou a boca e um chute foi dado em suas costas, seguido de um grito do capitão enfurecido. Aze caiu, e novos chutes foram dados.

    – Pensou que sou idiota? Pensa que não me contaram o que aconteceu lá, seu órfão miserável!

Mais uma vez, eu não salvei Aze. Uma semana depois, ele ainda se recuperava dos seus ferimentos, mas como poderia se recuperar dos dentes e costelas quebrados? Daquele dia em diante, Aze nunca mais foi o mesmo. Lembro-me perfeitamente da primeira coisa que ele me disse quando abriu os olhos novamente.

    – Quando eu melhorar, Naja, nós vamos para o paraíso.

                                                 ****

    Aze nunca havia me contado que seu pai foi um soldado, um daqueles que vieram para cá atacar o Paraíso. Nem todos vieram em paz; alguns vieram para atacar. Quando faltou água e alimento, muitos governos mandaram homens para roubar o Paraíso. Não deu certo; foram expulsos para o alto-mar. Eles não conseguiram voltar, então ficaram por aqui. O pai de Aze era um deles. Depois de algum tempo, a mãe de Aze morreu, e seu pai deu um jeito de trazê-lo para cá. Seu pai também morreu em um ataque ao Paraíso. Aze disse que tem coisas dele escondidas em um cruzeiro, então nós vamos lá buscar. Agora que não temos mais que limpar nada, temos muito tempo livre.

    Como já falei antes, os cruzeiros são barcos maiores que seguram os menores e onde ficam as pessoas importantes daqui. Vamos para o Rei Negro, que é um cruzeiro que antigamente era um barco de extração de petróleo do fundo do mar. Hoje, ele não extrai mais petróleo. Não é que não tenha mais nada lá embaixo, mas o equipamento foi retirado pelo Paraíso em troca de equipamentos para dessalinizar a água. Assim, ele agora serve para tirar sal da água!

    É assim que vamos entrar: vamos simplesmente pedir emprego. O Paraíso não gosta de ver crianças trabalhando nessas máquinas, então o pessoal do cruzeiro evita fazer isso. Mas Aze e eu sabemos como convencê-los, porque o Paraíso gosta menos ainda de ver crianças morrendo de fome ou que seus corpos cheguem à praia. Então, Aze e eu imploramos por comida, e ninguém em África Mar dá comida de graça. Nós fomos colocados para empurrar carrinhos bem grandes; os adultos empurravam sozinhos, e eu e Aze empurramos juntos.

    – Naja, vamos escapar assim que for a hora de comer e vamos ao esconderijo do meu pai.

Aze parecia estar com a mente afiada naquele dia. Assim que o sinal tocou, ele correu em direção a uma porta com uma escada, e eu tive que me esforçar para acompanhá-lo. Aze andava rápido; ele sabia exatamente para onde ir. Parou na frente de um armário velho, onde entramos. Havia apenas um monte de coisas velhas no local, e nós dois mal cabíamos ali dentro. Aze pediu que eu me afastasse e começou a puxar a parede de ferro. No início, achei estranho, mas logo a parede começou a se mover.

    – Meu pai criou isso para esconder as coisas dele. Ele dizia que muita gente escondia coisas nos cruzeiros, pois poderia precisar delas um dia. Então ele fez o mesmo, pois pensava que havia pessoas que queriam nos fazer mal – Aze falava enquanto manuseava uma arma, carregava os pentes e soprava a poeira.

    – Você sabe usar isso, Aze?

    – Claro, Naja. Meu pai era um soldado, ele me ensinou.

    Meu pai dizia que armas são para homens fracos e que algo que só serve para matar não pode ser bom. Mas Aze disse que, se não matamos para comer, como sobreviveríamos? E também, como os fracos vão se proteger dos homens maus? Aze até falou que as armas foram inventadas pelos homens fracos. Eu não acho; sei que foram inventadas pelos fortes para conquistar e destruir. As armas sempre nos destroem, e, quando Aze e eu estávamos à espreita, esperando a chegada do barco de frutas do Paraíso, eu sabia que ela nos traria destruição.

    Aze foi para o cruzeiro assim que o barco chegou, agarrou uma das caixas das mãos de um homem do Paraíso e, assim que saiu da vista dele, começou a comê-las até que um carregador do cruzeiro viu e deu um tapa em Aze. Eu virei e corri. Aze queria que eu tivesse esperado um pouco mais, mas eu não ia ver Aze ser espancado novamente, então corri o mais rápido que pude até o barco do Paraíso.

                                     ****

    Aze não estava machucado quando voltei, mas uma discussão entre os homens do Paraíso e do cruzeiro começou.

    – Você tinha que ter esperado mais, Naja. – Aze cochichou em meu ouvido. Pouco tempo depois, o homem do Paraíso nos chamou e disse que iria nos levar de volta ao nosso barco.

    Não que o que iríamos fazer já não houvesse sido tentado por outras pessoas. Muitos outros já tinham tentado sequestrar um barco do Paraíso para entrar lá. Todos foram mortos ou presos, mas Aze dizia que éramos crianças; se fossemos presos no Paraíso, logo estaríamos soltos e poderíamos ficar por lá. Isso era só o que algumas pessoas falavam sobre as crianças presas pelo Paraíso. Outros diziam que elas eram simplesmente devolvidas, ou pior, jogadas no mar.

    Então, quando Aze pegou a arma de mim e a apontou para o homem do Paraíso, eu simplesmente fiz um gesto de calma. Ele não falava nossa língua. Aze ficou nervoso e gritava enquanto o homem abaixava a sua arma. Os gritos de Aze chamaram a atenção dos outros. Uma moça apareceu – era a médica que havia atendido Aze da última vez. Ela falava a nossa língua.

    – O que estão fazendo, garotos?

    – Queremos que nos leve para a costa, para o Paraíso – gritava Aze. Percebi que ele não a reconheceu.

    – Garotos, nós não podemos simplesmente ir para a costa. Vamos parar; isso só vai piorar e não vai levar vocês a nada.

    – Nos leve ou vão morrer – Aze gritava para todos à sua volta, e meu coração batia muito rápido. Aze mandou que todos fossem até a cabine do piloto, e finalmente o barco mudou o rumo.

    Aze e eu não fazíamos ideia de que aquele barco, com apenas quatro pessoas, vinha de um barco ainda maior. Quando vimos o navio, não sabíamos o que fazer.

    – Quando passarmos por esse navio e irmos em direção ao litoral, eles vão saber que algo está errado e vão nos atacar. Vocês não têm armas suficientes para tomar o navio grande. Pensem direito, garotos; eles vão nos explodir.

    – Não importa, não importa! – gritava Aze, como um louco. Os homens do Paraíso começaram a ficar mais preocupados. Alguém tentou responder ao rádio, mas Aze não deixou ninguém falar. Quando o rádio se calou, a médica voltou a falar.

    – Estamos muito próximos. Se não respondemos, eles vão nos atacar ou pior, nos explodir.

    – Somos apenas crianças! – pela primeira vez, vi lágrimas no rosto de Aze. – Só queremos sair daqui!

    – Eu entendo, garotos, então deixem que eu fale com o navio. Deixem que eu explique a situação para eles.

    – Não! Vamos mostrar isso para eles!

    – Isso não vai funcionar, garotos.

    – Você chama aquele lugar de Paraíso, Naja? – Aze olhou para mim. – O Paraíso não mata crianças, não é, Naja?

    O olhar da médica me dizia para não concordar. Eu queria dizer a ele para voltarmos, para ficarmos em segurança, mas falei apenas um “sim”. Eu, Aze e a médica fomos para a frente do barco. Estávamos descendo as escadas quando o primeiro impacto nos atingiu. Aze foi jogado para trás. Eu queria voltar, mas veio o segundo impacto. Senti ela me segurar, senti o barco virar, senti ela abraçar meu corpo. Senti a água ao meu redor, senti meu corpo ser arrastado para fora do barco. Ainda me lembrei de Aze, mas a água foi mais forte, e eu desmaiei.

    Quando acordei, a médica estava ao meu lado. Eu não sabia onde estava, mas tudo que fiz foi perguntar por Aze.

    – Eu não sei – isso foi tudo o que ela respondeu.

    Depois fiquei sabendo que estava no Paraíso, e todos os dias, depois disso, ela veio me visitar até o dia em que me disse que eu iria para sua casa. Foi assim que deixei África Mar, mas África Mar ainda está lá, e todos os dias eu ouço sobre como ela cresce, assim como os conflitos com o Paraíso. Eu quero ir ajudá-los, quero ver se Aze está vivo, se ele conseguiu voltar. Planejo este dia desde a minha infância, e agora ele está próximo. Estou próximo de voltar a África Mar.

FIM.



O andarilho do gorro flamejante

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