A BIBLIOTECA
Aquela era a primeira vez que Lucas dormia fora do seu quarto nos seus 13 anos de vida. Isso nunca havia acontecido antes, nunca havia passado uma noite em um quarto diferente, nunca pensou em sua mãe e seus irmãos não estarem no quarto ao lado. Pensou nisso e abriu seus olhos para a escuridão; não estava assustado, queria apenas certificar-se que estava ali, que não estava em seu quarto com seus poucos livros na sua pequena estante, livros que ele não pôde levar, não estava ali o guarda-roupa que o seu pai fez.
Só havia a sua pequena mala que ainda não tinha sido desfeita. Virou o rosto na direção onde a deixou, não conseguia vê-la, enxergou na escuridão apenas uma pequena parte do seu contorno no seu novo quarto, que era pequeno. Não quis pensar mais no que havia ali, então virou-se bruscamente para o lado da parede, causando um rangido na cama.
Tudo que o menino mais queria era adormecer, mas não conseguia deixa de pensar por que ele foi para ali, junto aos bibliotecários. Lucas olhava aquela nova parede e adormeceu pensando naquilo.
Acordou antes que qualquer raio de sol aparecesse em sua janela, então ouviu nitidamente quando os primeiros movimentos foram feitos na porta. Ela abriu-se e o brilho de uma lamparina inundou o quarto.
— Olá. — levantou a cabeça para demostrar que estava entendendo — o meu nome é Isaías, serei o seu tutor a partir de hoje, aqui começamos cedo.
Lucas começou a levantar-se. Assim que ficou de pé, o homem fez um gesto para ele o acompanhar, o que o menino fez prontamente.
— Como eu disse, eu serei o seu primeiro tutor, — o homem começou a falar, assim que passaram para o corredor — não sou um bibliotecário ainda, acabei de fazer 18 anos. Estou aqui há pouco mais de 2 anos, não sou muito mais velho que você, mas vou te acompanhar nos primeiros afazeres.
Isaías abriu uma porta e fez sinal para Lucas entrar, era um banheiro com muitas pias e vasos. O tutor retirou um pote de um dos armários, destampou e em seguida, puxou uma pequena escova de madeira, passou na pasta dentro do pote, levou à boca e começou a esfregar. Lucas viu o momento em que sua boca encheu-se de espuma e depois de um tempo, ele a cuspiu e virou-se para o menino com uma nova escova na mão.
— É assim que fazemos nossa higiene bucal. Faça como eu fiz, não engula a espuma por mais que o gosto seja bom, pois é um sabão, pode te fazer mal.
Lucas sabia disso, não tinha pasta ou escova na fazenda, mas a mãe fazia ele e seus irmãos escovarem os dentes com raízes todos os dias, às vezes eram amargas e machucava sua gengiva. Apesar disso, sua mãe dizia que aquilo era para evitar a dor, agora ele tinha uma escova macia e aquela pasta com um bom sabor. Terminou e lavou o rosto, enquanto Isaías já o esperava na porta
Voltou até o quarto e o tutor observou-o arrumar sua cama, o menino estava ansioso para ir à biblioteca, então, quando passou próximo à saída do alojamento, andou em sua direção, mas sentiu Isaías tocar seu ombro.
— Ainda não, temos que tomar café da manhã.
Lucas nunca tinha visto tantos bibliotecários juntos, havia desde ensinadores a mantenedores da cidade, todos que faziam a cidade funcionar. O menino caminhava enquanto ouvia os outros conversarem sobre livros que ele já leu, muitos dos quais ele havia pegado ali; interessava-se por cada uma das conversas quando um bibliotecário mais velho irrompeu pela porta e falou em voz alta.
— Forasteiros! Forasteiros chegaram na cidade!
Todos levantaram-se e aquela que Lucas sabia ser a líder de todos, falou:
— Graças a Deus, ainda há vida lá fora!
Minutos depois, o vai e vem era intenso, os forasteiros comiam no refeitório com muitas pessoas ao redor. Lucas não conseguia aproximar-se e permaneceu próximo à Isaías; a cada passo que o tutor dava para dentro da multidão, o menino o acompanhava, até finalmente começar a ouvir a conversa.
— Vocês sabem nos dizer o que aconteceu com o mundo?
— Não sabemos, — um dos homens falava com a boca cheia — mas na época do meu avô, ouvi boatos de que foi uma guerra que começou em um tal de “oriente”.
— Aposto que foi nas Coreias! — alguém comentou em voz alta e Lucas não pôde ver quem foi.
— Não sei, as coisas estavam ruins com a China também, mas como chegaram até aqui?
— E quanto a doença?
Os comentários espalharam-se rapidamente, e as falas encheram o refeitório até que uma voz se sobrepôs a todos: a mulher — que até então, Lucas não tinha visto que estava sentada na frente dos forasteiros — levantou-se com a mão erguida.
— Se nossos convidados não se incomodarem, podem fazer sua refeição na biblioteca, lá conversaremos enquanto escrevemos tudo que falam.
Os forasteiros levantaram-se com os seus pratos nas mãos, e o menino os viu pela primeira vez: os dois homens de pele clara e muito pelo, vestiam roupas esfarrapadas com remendos de couro de animais. Assim que saíram, todos começaram a se dispersar e Lucas começou a ir atrás, mas Isaías mais uma vez tocou em seu ombro.
— Aonde vai?! Hoje, nós estamos designados para o refeitório e cozinha, o que quer dizer que temos que arrumar tudo isso aqui. — O jovem fez um gesto com a mão mostrando tudo ao menino, vendo a decepção dele. — Não se preocupe, vão escrever tudo que falarem e depois você vai poder ler.
***
Lucas limpou, secou e lavou enquanto observava as idas e vindas de pessoas da biblioteca. Já era mais de meio-dia, quando Isaías finalmente olhou para ele e falou as palavras aguardadas.
— Agora finalmente podemos ir ver o que estão fazendo lá na frente. — falou, sorrindo para o menino.
Uma vez por ano, os ensinadores levavam Lucas para dentro da biblioteca, a única vez em que ele podia escolher entre vários livros, então, o menino conhecia bem aqueles corredores, e estava agora acreditando que, por gostar muito daqueles dias, ele fora para lá. Atravessou os corredores passando a mão nos livros, avistou um dos forasteiros conversando com a líder, aproximou-se e pôde ouvi-los.
— Vamos seguir o caminho que o meu avô desenhou, ele me dizia que era esse e o caminho para a cidade grande, deve haver alguém lá.
— Não sei dizer, todos que foram, não voltaram. Têm fazendas do nosso povo a um dia de viagem, se quiser, podem ficar por lá, tem terra boa para plantar mas não seguimos mais a direção da cidade.
— Não, não, nossos parentes foram para lá, e vamos encontrá-los!
O menino viu a desaprovação nos olhos da mulher, que ao percebê-lo ali, sorriu para ele, puxou o forasteiro e se foram.
Os dias foram de correria. Todos na biblioteca ajudavam os forasteiros nos preparativos para a sua partida; alguns levavam comida e roupas, outros, mapas e conhecimento sobre trilhas e caminhos. Enquanto isso, Lucas limpava as estantes de livros sob o olhar e comentários de Isaías.
— Não acho que eles vão voltar... — comentou o jovem — eu não tenho vontade de parti, sabe por quê?! Porque aqui tem muitos livros que ainda não li.
O menino, em parte, concordava com aquilo, queria ler todos os livros que estavam na biblioteca, mas também queria muito ver o que estava lá fora, além da floresta e das montanhas que os adultos não deixavam ninguém ir.
Alguém chamou Isaías e Lucas continuou a limpar, lia o máximo de títulos que podia enquanto limpava. Isaías alertara-o para não se distrair, mas um título chamou sua atenção: “O Diário Do Apocalipse”.
...nós não sabemos o que aconteceu, o contato com o resto do mundo se foi e não recebemos caminhoneiros há dias, nossos estoques de mantimentos estão baixos e a luz oscila.
Lucas já havia lido sobre caminhões e luz, os bibliotecários ensinadores haviam mostrado para ele as imagens e explicaram como funcionavam, nas muitas histórias em que tinham carros e luz.
“...depois de muito pensar, eu, o prefeito e o delegado fomos até a rodovia. Estava vazia, andamos nela o máximo que podíamos mas em certo momento, ela simplesmente desapareceu. Não se trata de ter sido destruída, simplesmente havia apenas mato onde ela deveria estar, uma mata densa e quase virgem. O delegado Silvestre Rocha pegou seus homens e partiu mata adentro”.
Lucas assustou-se e fechou o livro ao ouvir seu nome chamado e os passos de Isaías.
— Vamos, temos que ir até a confecção do sr. Alito.
***
O sr. Alito monopolizava toda a conversa. Ora reclamava das trocas, ora das pessoas que administravam tudo, mas agora, sua reclamação concentrava-se quase inteiramente nos forasteiros.
— O que tem eu a ver com dois malucos que querem procurar fantasias, heim, Isaías?! — O jovem apenas sorria com paciência — Com tantos problemas que tenho aqui, agora tenho que preparar roupas e cobertores para forasteiros?! Eles não vão voltar, já vimos isso! A sra. Yara bem sabe de tudo …
— Tem crianças aqui, não fale de coisas proibidas! — Isaías interrompeu o sr. Alito, assim como Lucas parou de ajudar uma mulher um pouco mais velha do que seu tutor a dobrar cobertores — Viemos apenas pegar o que a Senhora mandou.
O menino sabia que havia coisas que não diziam às crianças, cansou-se das vezes que ouviu os adultos cochicharem pelos cantos, ou pararem de conversar quando ele chegava. Então, voltou a fazer seu movimento de dobra e ignorou os homens.
— Desculpa, ele vai ser um de vocês agora, só não estou acostumado, ele ainda é tão jovem, leve os cobertores levarei as roupas assim que tiverem ajustadas.
Lucas atravessou com os cobertores a pequena praça da cidade, quando Isaías começou a falar sem olhar para ele.
— Essa cidade já teve um nome, você sabia?! Tinha um nome porque havia muitas outras cidades, mas depois, não havia mais. Então, aqui ficou sendo somente a “cidade”, e sei que você gostaria de ver o que tem lá fora, e por isso você foi além da fazenda para dentro da grande floresta.
O menino baixou a cabeça, não iria dizer que não estava fugindo, apesar de estar fugindo de muitas coisas e sabia disso, muito antes de ir para dentro da floresta.
— Escute, Lucas, eu sei que você está com medo. Mas dê uma chance à mim, à essa cidade, à biblioteca e à sra. Yara.
O menino avistou um grupo de jovens cercando os forasteiros, ajudando-os a amarrar as coisas nas garupas das bicicletas, e ficou sabendo que iriam embora no dia seguinte. Saiu dali em poucos minutos e depois da lição e jantar, estava de volta em seu quarto, encarando de novo, o teto diferente. Sua mãe tinha medo de que ele fugisse, por isso o entregou aos bibliotecários? “Não importa, eu gosto de livros e da biblioteca”, pensou.
Dormiu e acordou quando a escuridão da noite ainda estava em sua janela. Saiu do quarto, atravessou os corredores com sua lamparina e estava agora na porta da biblioteca. Girou a maçaneta e ela abriu-se; começou a passear pelo corredor, e sem perceber, seus pés o levaram até o corredor daquele livro. Abriu-o novamente.
Pegaram Tulio novamente roubando, cobraram providências, muitos queriam matá-lo. Sem autoridades e sem jeito de fazer a lei, há muitas pessoas que querem fazer com as próprias mãos. Eu consegui trazê-lo para a biblioteca e acalmar a maioria.
O menino esforçava-se para ler na escuridão, por algum motivo, achava que aquele livro era um dos proibidos para crianças. Lembrou-se de que ali havia muitos pois os ensinadores cansavam de dizer quantos livros estavam fora do alcance de crianças. Mas aquele ainda não haviam falado nada, então, pulava as páginas procurando algo que chamasse sua atenção.
Túlio foi uma grande surpresa. Fazem meses que estamos isolados e ele passou a me ajudar a procurar uma solução nos livros. O mais interessante é que o garoto é um excelente criador, passou a construir tudo que achamos útil, com uma habilidade incrível com madeira e tudo mais. Agora, todos vêm até mim com os seus problemas para encontrar soluções, como levar água até à plantação, procura de conhecimento médico, etc. O delegado nunca voltou e o prefeito diz que vai partir, fala que tem que reportar à capital, mas quer levar a família, falei para deixá-los.
O menino parou para respirar e pensou. Ele fez o que os bibliotecários fazem hoje: procurar conhecimento nos livros.
No dia seguinte, Lucas estava sonolento. Sabia que Isaías lhe explicava algo, carregava agora cestas de frutas para o meio da praça, onde os forasteiros estavam despedindo-se e amarrando mais coisas nas bicicletas. O menino sabia que não teriam problemas com o transporte, ele próprio tinha uma parecida, mas o caminho transitável ia somente um pouco além das fazendas; ele sabia disso, pois já havia feito aquela rota. Apesar de as bicicletas que seu Zezé deu serem são boas, dá para entrar um pouco na mata com elas, vai ficar cada vez mais difícil até ser praticamente impossível pedalar.
Os dois homens subiram nas bicicletas. Alguns os seguiram dizendo tchau, outros apenas aplaudiram e pediram para mandarem notícias. Isaías apenas respirou fundo e disse:
— Acho que nunca mais ouviremos falar deles... Tenho que pegar um remédio no laboratório de química.
O laboratório ficava do outro lado da praça, bem em frente à biblioteca e era a segunda maior construção da cidade depois da própria. Lucas sabia que um dia aquele lugar foi o que chamavam de “supermercado”, leu isso em um dos livros antigos; costumava ter muitos produtos e as pessoas usavam “dinheiro”. O garoto sabia o que era dinheiro, todas as crianças aprendiam isso, mas não havia mais a moeda, as pessoas apenas trocavam coisas umas com as outras.
Ele entrou e viu vários locais divididos, alguns com pequenas máquinas a vapor, com pessoas concentradas; bem ao fundo, avistou um rosto conhecido que mexia em um grande caldeirão, e acenou com a mão quando o viu.
— Ei garoto, como você está? — Fátima era alguém que ele conhecia desde sempre, era sua médica, professora e a pessoa que mais o trouxe livros. — não tive tempo de ir até você, mas fico feliz que esteja bem. Ei, Isaías veio buscar o remédio da Senhora?! Vou pegar.
— Mas que isso? A Senhora só quer saber quando vai voltar para a biblioteca, ela que fale com você.
— Eu sei o que ela quer e eu estou bem do outro lado da praça, é só ela vir aqui! Por que não mexe isso para mim, enquanto eu pego o remédio? — Isaías substituiu a mulher e ela saiu.
— Todos sabem que ela será a nova bibliotecária-chefe, — ele mexia o caldeirão e não olhava para o menino — é por isso que a sra Yara quer falar com ela, quer que ela comece a aprender para que a sucessão aconteça, ela é a melhor entre nós.
Fátima voltou e entregou um vidro para Isaías, que colocou-o no bolso e continuou a mexer o caldeirão.
— Mexa por mais 10 minutos e depois pode parar, isso é tinta para tecido do sr Alito, vou mostrar o local para o garoto.
O lugar não era maior que a biblioteca, e além disso, tinha um único corredor em linha reta. Fátima percorreu com Lucas, apontando o que cada sala era. “Aqui, fazemos remédios para diversos problemas intestinais”, “aqui, para a cabeça”, “ali, vários inseticidas são feitos”, “ali, tinta para canetas e papel”, “produtos de limpeza, higiene, etc”.
O menino caminhou ouvindo tudo até que finalmente chegaram à porta dos fundos e a mulher a abriu. Lá fora, Lucas viu uma imensa torre com catavento no topo; das muitas vezes na sua vida que foi à cidade, foram poucas que prestou atenção naquela construção. Fátima tirou seu pequeno fumo do bolso, sacou seu fósforo e acendeu.
— Não se importa com meu fumo, não é?! — Mesmo com uma voz quase inaudível, ele poderia responder que não gostava daquele cheiro e que nunca gostou mas não respondeu nada, ficaram ali por algum tempo, até ela tirar uma chave do bolso e entregar para Lucas. — Suba a escada até o topo, lá tem uma porta, abra, empurre com força, ela já está velha; lá dentro, você vai ver um caderno em cima de uma mesa estranha, traga ele para mim.
A porta estava realmente velha e Lucas a empurrou com força. Quando a abriu, viu um grande espaço com uma janela, onde a pá do catavento passava por ele e a estranha mesa que ela havia falado, estava lá. Avistou o caderno e o pegou; antes de descer, foi até à janela e pôde ver toda a cidade e mais além, aquela construção de tijolos madeira e ferro era a mais alta da cidade, mas nunca havia prestado atenção nela. Talvez por estar no fundo de uma construção tão grande.
Entregou o caderno à Fátima, que continuava fumando seu cigarro. A porta abriu-se enquanto ela folheava o caderno e Isaías tocou o seu ombro, parando ao seu lado.
— Temos que ir, você tem aula, e além disso, a Senhora está me esperando. — começou a andar e fez gesto para Lucas o acompanhar.
— Espere! — falou Fátima, batendo o caderno na coxa, tentando tirar os últimos vestígios de pó — Pegue isso, estude, veja o que você acha. Se não gostar, entregue para a sra. Yara, já faz tempo que ela quer isso.
Lucas pegou o caderno e passou pela porta que Isaías mantinha aberta. Ouviu-o rir e dizer:
— Ainda é cedo para tentar recrutá-lo para o time do laboratório. Além disso, ele gosta de livros, talvez ele queira ficar com a gente lá na biblioteca.
***
—Ela realmente gosta de você. — Lucas e Isaías caminhavam próximo
à biblioteca — Ela te deu o estudo do seu falecido marido, você sabe, não é?! Todos nós que somos aceitos como bibliotecários, temos que estudar um monte de coisas para ajudar a cidade, então, temos nossas facções: os ensinadores, os químicos, os que fazem manutenção e construção e os que cuidam dos livros e da biblioteca. Então, na maior parte das vezes, fazemos e aprendemos o que a cidade necessita, mas nas nossas horas de folga nos dedicamos ao estudo de algo que realmente gostamos, e esse livro era isso para o Vitor.
“Mais uma coisa, muitos de nós escrevemos nossos estudos e conhecimentos para que os próximos possam saber fazer também. A maioria só escreve um ou dois, mas Fátima já escreveu mais de dez sobre todos os processos químicos, remédios e tudo que ela descobriu, por isso ela será a próxima bibliotecária chefe, e consequentemente a líder da cidade. Então, se esforce para que ela fique orgulhosa de você.
Lucas refletiu enquanto folheava o livro de Vitor. Nunca pensou em Fátima como mais que a mulher que ele conhecia desde criança, que lhe dava remédios, livros, presentes e conversava horas com a sua mãe. Então, quando abriu o livro que ganhou em sua cama e começou a ler sobre correntes alternadas e correntes contínuas, condutores, tubos e engrenagens, soube que ele queria gerar energia. Viu alguns livros sobre aquilo na biblioteca, já era tarde, mas ainda assim, pegou sua lamparina e caminho até lá.
E novamente aquele corredor o chamou. Queria muito saber o que aconteceu, olhou para o local onde estava o livro mas ele não estava lá; caminhou até o fim da biblioteca e subiu a escada. No final, estava o escritório da sra Yara, onde ela se encontrava, com lamparina iluminando ao seu redor e trabalhava na confecção de um livro e o Diário do Apocalipse estava ao seu lado. Lucas percebeu que ela não o viu, então, apagou sua lamparina e ficou à espera.
A sra Yara demorou um longo tempo com seus afazeres, mas finalmente levantou-se, pegou sua lamparina e o Diário do Apocalipse. O menino viu quando ela devolveu o livro de volta ao seu lugar.
Uma chuva que queima chegou à cidade e causou doenças, nos dois anos desse isolamento, nunca enfrentamos algo assim. Já basta o número de pessoas que partiram e nunca voltaram, agora perdemos para a doença. A antiga escola se tornou um local de isolamento, tenho certeza que é a chuva, mas têm aqueles que acreditam que a doença é transmitida pelas pessoas. Os doentes já estão sofrendo demais com os caroços e tumores enormes crescendo em seus corpos, agora tem isso, a cidade está apavorada! Têm poucos livros de medicina aqui, mais sei que é efeito da radiação. Mas radiação do quê? Não quero nem imaginar.
Tulio e seus amigos trancaram a escola e colocaram lá, todos com o menor sinal da doença. Para entrar lá, tive que ameaçar nunca mais ajudar o prefeito e aqueles moleques, tenho nesta semana tantas reflexões a fazer…
O menino parou a leitura e pulou algumas páginas, estava mais interessado nas pessoas doentes, queria saber o que houve com eles. Parou quando viu algo que chamou sua atenção.
Isso foi horrível, a escola pegou fogo. Eu sei que foi Tulio e seus amigos, há meses que ele vem dizendo que a doença diminuiu quando a escola foi isolada, indiretamente ele vem pregando isso. Meu Deus, quantas pessoas mortas! Ele alega que foi um acidente, não foi, eu sei que não foi, eles mataram aquelas pobres pessoas já tão deformadas…
Lucas rapidamente fechou o livro e colocou em seu local. Saiu andando com seu coração batendo forte, sem conseguir pensar e chegar até à porta dos fundos, e tentar abri-la. Estava trancada. Tentou mais uma vez com mais força, mas não abriu. “Seu idiota!”.
Andou de um lado para o outro desesperado, queria sair dali; levantou sua cabeça e viu os primeiros raios de sol surgirem pela janela. Sorriu, saltou pela janela e foi para seu quarto.
Nos dias que se seguiram, Lucas não quis mais ler aquele livro. Preferiu dedicar-se aos estudos e ao livro de Vitor, começou a gostar daquilo, aprendia cada dia mais sobre energia, e subir na torre ficou cada vez mais frequente. Cada dia passava mais horas por lá e os bibliotecários começaram a dar-lhe tudo que encontravam sobre o assunto. Gostava daquilo, mas a parte melhor era ficar sozinho com seus escritos, no alto daquela torre; aquele local virou seu lugar especial. Quando não estava tentando fazer o gerador funcionar, sentava na frente da janela para ler, ali era parecido com o local que deixou em casa, embaixo da árvore em frente ao lago, onde via escondido, os seus irmãos se banharem e brincarem. Poucas vezes esteve lá junto deles, nunca conseguia nadar, então preferia ficar longe sem ser visto como ali, agora, observando a cidade.
Ouviu alguém empurrar a porta; antes mesmo de virar-se, sabia que era Fatima, seus xingamentos à porta já eram conhecidos.
— Vou pedir para um construtor consertar essa maldita porta, apesar de que não tenho mais idade para encarar essa escada! — Fátima ajeitou seu vestido e sentou-se à frente de Lucas. — Faz dez anos que não subo essa escada, mas eu queria que tivéssemos essa conversa aqui. Sua família vem para o dia da troca, estive com eles na fazenda. O período de colheita acabou e eles vêm trazer o que não precisam, sua mãe está com saudade. – Fátima passou a mão pelo seu ombro e sua cabeça e fez um tempo de silêncio — Eu te dei aquele livro e talvez um dia, eu me arrependa por isso... Foi bem aqui que o encontrei morto, sabia? — O menino sabia, pois Isaías já havia contado à ele — Ele tinha essa maldita fixação por energia, iluminar a cidade, achava que se fôssemos iluminados, alguém nos encontraria. — A mulher engasgou ao falar — Não sei direito o que aconteceu, ele apenas estava ali deitado com essa coisa aberta, seu coração parou, nunca descobri o porquê, as pontas dos seus dedos estavam roxas, mas eu sei que foi essa fixação que o matou. — ela voltou a tocar em Lucas, e agora já estava em lágrimas — Continue o trabalho dele se puder, mas não faça como ele, garoto.
Fátima levantou-se enquanto Lucas já sabia a resposta que ela nunca teve, Vitor havia morrido eletrocutado, provavelmente um curto-circuito, mas ela não poderia saber disso, nunca estudou sobre energia. Ela saiu e fechou a porta. O menino voltou ao seu trabalho, agora com parte da resposta.
Ele mergulhou em cabos e fios, subiu e desceu até o motor da hélice e perdeu a noção do tempo, até ver a porta abrir-se novamente.
— O que está fazendo? — o tom de Isaías não deixava dúvidas de que aquilo era uma bronca. — Só porque Fátima praticamente mora nesse lugar, não significa que você também pode, ela não fazia ideia que você ainda estava aqui.
Lucas perdeu a noção do tempo, mas agora não faltava muito para que tudo ficasse pronto. Então, quando Isaías mandou que ele voltasse à biblioteca, ele insistiu para que esperasse, insistiu tanto que o tutor cedeu e desceu as escadas sozinho com a promessa que ele iria logo em seguida.
Isaías mal chegara ao meio da praça, quando um clarão cruzou suas costas. Assustado, olhou para cima e correu na direção da luz. Atravessou a porta ainda ofegante, e viu Lucas girando aquela caixa de um lado para o outro: era um farol que Vitor queria criar, ele vivia dizendo que a luz era algo para que as pessoas pudessem encontrá-los.
***
Lucas acordou tarde pois passou a noite quase inteira girando a luz do farol de um lado para o outro; só parou quando Isaías praticamente o arrancou de lá. O menino já estava sonolento quando andou pelos corredores da biblioteca e percebeu que toda aquela movimentação era por causa dele. Grupos estudavam sobre energia e discutiam o assunto em voz alta; dois ou três perguntaram algo que ele não soube responder. Isaías foi ao seu socorro, o arrastou até onde a Senhora estava e o sentou em sua frente, ficando ali até que ela terminasse de conversar com outros ao seu redor.
— Muito bem, eu devia ter falado com você assim que chegou, mas apareceram os forasteiros e também isso não estava pronto. — a Senhora estendeu para Lucas um livro escrito o nome dele na capa. — Ele pegou e folheou suas páginas em branco — Tive que correr, normalmente, damos isso aos novos membros antes que façam suas primeiras descobertas, mas você foi mais rápido do que eu imaginei.
O menino sabia que mesmo a sua presença ali não era imaginada por ela; ele não chegou na época em que novos aprendizes eram selecionados.
— Como você sabe, parte do nosso dever é escrever nosso conhecimento e estudo, como o manual que Fátima te deu, o de Vitor. Então, escreva aí todos os conhecimento que você ver como importante. Eu vou ficar com o manual de Vitor agora. Vou datilografá-lo e melhorá-lo junto com todas as pessoas que possam me ajudar a fazer isso; e isso quer dizer você, rapazinho — a Senhora falou, aproximando-se e dando um grande sorriso
E seu sorriso foi, nos dias seguintes, a melhor lembrança de Lucas enquanto mostrava tudo sobre o farol para muitos bibliotecários. A maior parte das coisas ele ainda não entendia, mas passou os últimos dias ensinando e aprendendo; só parou mais cedo na última noite, tinha que dormir e agora corria pela grande feira de trocas da cidade. Sabia onde seu pai sempre gostava de ficar, alcançou-o e o abraçou; sem nem perceber, procurou alguém atrás dele.
— Seus irmãos foram entregar algumas trocas já feitas.
Sua mãe finalmente aproximou-se; ela não o abraçou, apenas ajeitou toda a sua roupa, como sempre fazia, e de mãos dadas passearam pela cidade. Entrando no laboratório, Lucas percebeu a quantidade de vezes que ela fez aquilo, e fez mais vezes enquanto estava no farol esperando anoitecer. Quando finalmente o menina ligou a luz, ela apenas disse “lindo!”, observando por um longo tempo a alegria das pessoas na praça vendo a luz passar, e finalmente ela ajoelhou-se ao lado de Lucas.
— Você é pequeno para sua idade, sempre foi. Eu e Fátima tentamos fazer algo sobre isso, não conseguimos, me desculpa. — sua parecia querer chorar. “Ela sempre chora”, pensou Lucas. — Eu sinto muito por não conseguir te proteger a ponto de querer ir para outro lugar — ela finalmente o abraçou.
***
Por mais que ele tentasse, tudo que conseguia era rolar na cama. Deitou-se mesmo sem sono depois de dez páginas onde Platão não lhe disse nada; seus pensamentos estavam em outro lugar, seu mundo era em outro lugar. Levantou-se e seus pés o levaram aonde há muito tempo não ia: no corredor da biblioteca, de frente ao Diário do Apocalipse.
Não importa o que eu faça ou diga, agora Tulio é o líder, todos o seguem, ou por vontade ou medo. Têm seus pontos bons, ele começou a organizar melhor a cidade. Já outras pessoas procuraram terras férteis mais longe, mais próximo do rio, já fazem cinco anos e ninguém se atreve mais a ir muito longe, a cidade grande parece ter se perdido para nós, estamos aguardando alguém vir para…
O menino estava imerso em sua leitura, não viu a nova luz aproximar-se. A sra Yara o observou por um tempo, antes de pôr a mão em seu ombro. Lucas assustou-se, mas ela apenas sorriu, pegou o livro e fez sinal para ele a seguir.
Sentado em uma cadeira, o menino observava o trabalho dela.
— Eu sou uma fazedora e recuperadora de livros, sabia? Essa é minha grande paixão, eu os reviso, datilografo, faço a capa; depois costuro e colo tudo. Fiz grande parte dos livros dessa biblioteca, li mais livros que qualquer um aqui, mais esse é especial. — ela colocou a mão no Diário do Apocalipse. — E acho que você sabe que ele ainda não é para você. Então, vamos fazer um trato: continue sendo bom no que faz, como você é, e quando crescer, você pode lê-lo. — ela o encarou e o menino confirmou com a cabeça. — Ótimo, agora deixa eu te mostrar algo, “O manual da eletricidade por Vitor Guilherme Ruso e Lucas Mata”. Eu acabei de terminar, foi Fátima que insistiu para ter seu nome, ela realmente gosta de você.
Lucas ficou feliz em ver seu nome na capa de um livro, mas não entendeu porque não podia continua a ler o Diário do Apocalipse, e sem perceber, começou a passar tanto tempo naquela torre, que coisas começaram a aparecer por lá. Primeiro, um colchão, depois, uma cama e finalmente, suas roupas; não se lembrava mais da primeira vez que dormiu ali, mas agora ele iluminava a cidade até tarde da noite.
Todos chegaram à conclusão que demoraria tempo para a eletricidade beneficiar a cidade, então só o deixavam em paz, e mais uma vez o menino estava sozinho; e foi sozinho enquanto iluminava as matas e a rua que Lucas os viu chegar: forasteiros saindo da mata em grupos grandes. O menino os iluminou e viu como eles eram estranhos, seus braços longos e costas deformadas, todos andavam devagar, alguns quase rastejavam.
A cidade estava movimentada como o menino nunca viu, pessoas andavam de um lado para outro e ele ajudou como podia. Os forasteiros foram levados para todos os lugares da cidade, mais ainda assim, uma grande parte ficou na praça. A Senhora olhava e organizava tudo, o dia foi passando e a praça foi sendo esvaziada, e Lucas notou que grande parte dos adultos foram chamados, ficando apenas os bibliotecários. Começou a observar para onde eles iam.
O menino nunca teve dificuldades em não ser visto, sempre conseguiu achar caminhos que não tinham ninguém. Então, quando se distanciou dos outros, e esgueirou-se por locais que ninguém passava, achou o local onde os adultos se reuniam. O salão de reunião já era conhecido, Lucas viu inúmeras histórias encenadas por parte da cidade.
Entrou pelos bastidores, e a reunião já havia começado. A Senhora estava no palco, dirigindo-se à todos.
— Vocês têm que entender a situação.
— Não podemos ter eles aqui!
Lucas não viu quem falou, interrompendo a Senhora.
— Eles já estão aqui!
Antes que o menino pudesse pensar, muitas vozes começaram a falar, muitas delas de pessoas que ele conhecia desde sua infância. Conhecia seus filhos, sabia que muitos deles não eram seus amigos e agora ouvia o porquê.
— Eles são deformados…
— São monstros…
“Acho que sempre soube do porquê minha mãe chorava”, pensava Lucas, enquanto retirava o véu do seu rosto para secar suas lágrimas, ela sempre estava lá para cobrir meu rosto, meu corpo, sempre disse que me amava, mas sempre esteve me escondendo. Seu corpo começou a descer e suas forças começaram a esvair-se; ele mal conseguiu ver além das suas lágrimas, mas sentiu alguém tocá-lo, diziam algo a ele, enquanto o carregavam.
— Tudo vai ficar bem…
Ainda assim tudo que sentiu foi dor, e depois, um sono incontrolável.
Acordou em sua cama, no farol; já era noite e uma lamparina iluminava o local. O farol estava apagado, mas Isaías olhava pela janela, quando viu que ele se sentou.
— Você acordou. — O tutor aproximou-se e pôs a mão em seu ombro. — Vou dizer
à sra. Yara, por favor, não saia daqui.
Ele não pretendia fugir, já tentou isso antes e tudo que fez foi se perder na floresta, apenas voltou a se deitar e ficar com os seus pensamentos. Ficou assim até ouvir passos lentos na escada. Não quis olhar, tinha uma ideia de quem era, então, quando ela sentou na cama cansada e ofegante, não se surpreendeu.
— Desculpa a demora dessa velha em subir essa escada. Não estive aqui quando o Vitor estava vivo, então ele morreu e aí, eu quis esquecer esse lugar. Quando Fátima te deu o livro dele, eu não gostei; chamei a atenção dela por isso, mas ela te conhece bem... esteve em sua companhia desde quando nasceu, esteve todo esse tempo ao lado da sua mãe, e eu não estive, por isso, te peço desculpas. Desculpa se eu tenho que pedir tanta coisa à você, mas por favor, levante e olhe para mim.
Mesmo com muita resistência, Lucas levantou, mas não olhou para ela; ao invés disso, encarou o que estava em seu colo. A Senhora pegou o livro e começou a folheá-lo, e depois de um tempo, parou e entregou para o menino, apontando o local onde ele deveria ler.
Uma das crianças nasceu terrivelmente deformada, mais uma vez a cidade está apavorada e comentários horríveis são feitos sobre os pais e a criança. Depois de muito tempo, Túlio pediu a minha ajuda, amanhã vamos conversar com os pais.
A sra Yara voltou a pegar o livro e folheou mais um pouco. Voltou a devolver para o menino.
O que aconteceu lá foi simplesmente uma tragédia. Mesmo depois de conversarmos, o pai simplesmente matou a criança; e o pior, foi com o consentimento da mãe, disse que não podia conviver com aquilo, que não tinha condições de criá-la. Fiquei apavorado, mas a cidade parece aceitar tudo, ninguém quis puni-los, é como se eles tivessem anestesiados.
Assim que Lucas terminou, a Senhora voltou a pegar o livro. Respirou fundo e começou a falar:
— Depois desses acontecimentos, não criamos uma lei que dizia que podíamos matar todas as crianças deformadas. Mas isso se tornou a regra não escrita, e assim, nossa cidade seguiu, até sua mãe mudar isso com você. Ela desafiou isso e manteve você, na época, eu mesmo questionei isso, mas Fátima nunca questionou. E eu criei uma lei proibindo os adultos de falar sobre isso perto das crianças, eu puni todos que fizeram isso, mas isso não impediu você e nem a sua mãe de sofrerem. Então, antes de julgar o que você ouviu lá, é bom que saiba um pouco da nossa história. Eu prometo que quando for mais velho, você pode ler esse livro por inteiro, mas por agora, espero que aceite essas páginas como explicação do porquê de sermos o que somos. Escute, garoto, nós criamos mundos estranhos, acho que a sua mãe criou um mundo melhor quando decidiu ficar com você.
Lucas não se mexeu, enquanto a velha Senhora descia a passos lentos a escada. Fazia uma certa ideia das condições e sofrimentos da sua mãe, mas não se sentia melhor; então, voltou a se deitar e depois, adormeceu.
O Diário do Apocalipse
Essas são minhas últimas linhas como bibliotecária-chefe, amanhã passarei a liderança da cidade para Fátima. Em toda essa crise, ela foi excepcional, as pessoas aceitaram ela como líder naturalmente, e foi ela que deu a ideia de levar os outros para uma fazenda.
Eu temo que eles possam construir uma nova cidade lá, mas agora cabe à Fátima encurtar a distância entre nós e eles, lamento que em todo esse processo, o farol de Vitor tenha que ser desligado, essa é uma das condições para a aceitação, a cidade tem medo que novos deles apareçam.
Lucas ficou arrasado, é claro que foi isso que o levou a preferir viver na fazenda com os forasteiros, mas ainda assim, quando vou lá, não sinto tristeza por ele nos deixar, apesar de Fátima sentir. Ele sempre vai estar por perto, pode vir e aprender com a gente a qualquer hora, e quando olho para ele aqui, eu não vejo um garoto tímido e escondido atrás do seu manto com o rosto sempre coberto. Aqui, ele está livre, trabalhando e ensinando seus iguais, vocês podem ver um garoto que deixou tudo para trás, mas eu vejo um garoto que segue em frente.
Eu sei, não é o ideal. Mas nós criamos mundos estranhos, enquanto esperamos que um mundo melhor seja criado para nós.
FIM
